
Morreu esta segunda-feira em Lisboa, aos 88 anos, o poeta e ensaísta
António Ramos Rosa, um dos nomes cimeiros da literatura portuguesa
contemporânea, autor de quase uma centena de títulos, de
O Grito Claro (1958), a sua célebre obra de estreia, até
Em Torno do Imponderável,
um belo livro de poemas breves publicado em 2012. Exemplo de uma
entrega radical à escrita, como talvez não haja outro na poesia
portuguesa contemporânea, Ramos Rosa morreu por volta das 13h30 desta
segunda-feira, em consequência de uma infecção respiratória, em Lisboa,
no Hospital Egas Moniz.
Prémio
Pessoa em 1988, António Ramos Rosa, natural de Faro, recebeu ainda
quase todos os mais relevantes prémios literários portugueses e vários
prémios internacionais, quer como poeta, quer como tradutor.
Já
muito fragilizado, o poeta, que estava hospitalizado desde quinta-feira,
teve ainda forças para escrever esta manhã os nomes da sua mulher, a
escritora Agripina Costa Marques, e da sua filha, Maria Filipe. E depois
de Maria Filipe lhe ter sussurrado ao ouvido aquele que se tornou
porventura o verso mais emblemático da sua obra — “Estou vivo e escrevo
sol” —, o poeta, conta a filha, escreveu-o uma última vez, numa folha de
papel.
Aqui fica uma breve homenagem de Santa Maria.
Não Posso Adiar o Amor
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o rneu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração
António Ramos Rosa, in "Viagem Através de uma Nebulosa