em que ele saltou
da selva para o livro que eu lia.
Júlio Verne, esse,
chegou de balão
e pousou-me
devagarinho na palma da mão.
Depois houve uma
ilha e um tesouro
(a memória agora
zune como um besouro),
Tom Saywer, a quem
disputei a namorada,
Dumas, de quem
herdei esta espada quebrada,
e Dois
Aventureiros sempre à roda do Mundo
em livros velhos,
de folhas soltas e aspecto imundo,
que comprava a um
alfarrabista da esquina
cujo cabelo tinha
risca, caspa e brilhantina.
Lembro-me de ser o
Robin dos Bosques de mim menino:
vivia mil
aventuras, roubava a cada herói o seu destino.
Agora, se ainda
cavalgo estas histórias contra o vento,
já me pesa a
lança, já me arrasto no jumento;
deixei lá atrás,
nas planícies brancas da infância,
O meu selim de
prata, perdi muitos livros na distância.
Em troca encontrei
um dia Borges no seu labirinto
e antes dele
Hemingway, com quem pesquei, bebi vinho tinto
e vi correr o
sangue nas arenas da altiva Espanha
(não li ainda o
Quixote, guardo-me de tanta quimera, tanta façanha,
por ora basto-me
com Eça, Cesário, Pessoa
– e vejo moinhos
da Ibéria nas tascas da Madragoa)
Calvino recebeu-me
num castelo. Chamou-me Visconde,
falou de Cidades
Invisíveis, lugares misteriosos onde
sonho e magia
cruzam sem cessar as nossas Vidas.
Tolkien estava ao
lado e disse: "falamos, claro de Eras idas".
Mas eu discordei:
"há ainda Macondo, dos Cem Anos de Solidão,
cujos Buendias
revisito sempre com a mesma emoção".
Depois olhei para
as mãos e acrescentei: "E há os poetas".
(Sabes, Ruy,
também eu atribuo à poesia
a reconquista
trabalhosa da margem da alegria.
Por isso não
esqueço Elsinore do Cesariny, O'Neil e as setas,
Whitman – ele
próprio, Sofia serenamente ao sul,
Os miasmas de
Baudelaire e a colher de Herberto na minha boca azul).
Paulo Ramalho
Revista A Mar Arte, Inverno/Primavera/98




















